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As cinzas dele clamam contra João Calvino




As cinzas dele clamam contra João Calvino

 

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Você está por ler uma importante parte da História da Igreja do período da Reforma que foi escondida em nossos dias e que muito poucas pessoas estão cientes dos fatos. Prepare-se para um choque. Em 27 de outubro de 1553, João Calvino, o fundador do Calvinismo, teve a Miguel Servet (ou Michael Servetus em latim), o médico espanhol, queimado em uma estaca nas redondezas de Genebra por suas heresias doutrinárias![1] Portanto, o “codificador” da doutrina predestinacionista (Condenada como heresia no concílio de Orange em 529) violou o clamor da Reforma – “Sola Scriptura” – ao matar um herético sem justificativa bíblica. Este evento foi algo que Calvino já havia planejado muito tempo antes de Servet ser capturado, pois Calvino escreveu a seu amigo Farel, em 13 de fevereiro de 1546 (sete anos antes de Servet ser preso) e foi arquivado como dizendo:

“Se ele [Servet] vier [à Genebra], eu nunca o deixarei escapar vivo se a minha autoridade tiver peso.”[2]

Evidentemente, naqueles dias a autoridade de Calvino em Genebra, Suíça, tinha “peso” absoluto.  Por isso é que alguns se referiam a Genebra como a “Roma do Protestantismo”[3] e a Calvino como o “‘Papa’ Protestante de Genebra.”[4]

Durante o julgamento de Servet, Calvino escreveu:

“Eu espero que o veredicto seja pena de morte.”[5]

Tudo isso revela um lado de João Calvino que não é bem conhecido nem muito atraente, no mínimo!

Ficou óbvio que ele tinha ódio mortal armazenado em seu coração e estava disposto a violar a Bíblia para causar uma nova morte e da forma mais cruel.  Apesar de Calvino ter consentido com o pedido de Miguel Servet de ser decapitado, ele acabou aceitando o modo de execução empregado.

Porém, por que Calvino tinha o desejo de matar Servet?

“Para resgatar Servet de suas heresias, Calvino respondeu com a última edição de suas ‘Institutas da Religião Cristã,’ as quais Servet prontamente retornou com comentários insultantes. Apesar dos apelos de Servet, Calvino, que havia desenvolvido um intenso desagrado por Servet durante sua troca de correspondências, recusou-se a retornar qualquer dos materiais incriminatórios.”[6]

“Condenado por heresia pelas autoridades católicas, Servet escapou da pena de morte fugindo da prisão. No caminho para a Itália, Servet inexplicavelmente parou em Genebra, onde foi denunciado por Calvino e os Reformadores.  Ele foi pego no dia depois de sua chegada, condenado como herético quando se recusou a se retratar e, queimado em 1553 com a aparente tácita aprovação de Calvino.”[7]

“No curso de sua fuga para Viena, Servet parou em Genebra e cometeu o erro de assistir um sermão de Calvino. Ele foi reconhecido e preso depois do culto.”[8]

“Calvino teve ele [Servet] preso como herético. Condenado e queimado até a morte.”[9]

Entre o período em que Servet foi preso em 14 de agosto até sua condenação, Servet passou os seus dias restantes:

“… em um atroz calabouço, sem luz ou aquecimento, pouca comida e sem facilidades sanitárias.”[10]

Seja observado que os Calvinistas de Genebra colocaram madeiras semiverdes em torno dos pés de Servet e uma coroa de enxofre em sua cabeça.  Levou em torno de trinta minutos até que sua agonia terminasse em tal fogo, com o povo de Genebra em pé em volta para assistir ele sofrendo e morrendo lentamente!  Logo antes disso acontecer, os arquivos mostram:

“Farel caminhou ao lado do homem condenado e manteve uma constante enxurrada de palavras, em completa insensibilidade ao que Servet pudesse estar sentindo. Tudo que ele tinha em mente era extorquir do prisioneiro um reconhecimento de seu erro teológico – um chocante exemplo de uma desalmada cura de almas. Depois de alguns minutos disso, Servet cessou de responder e orou silenciosamente para si mesmo. Quando eles chegaram ao local de execução, Farel anunciou a multidão que assistia: ‘Aqui você vê o poder que Satanás possui quando ele tem um homem em seu poder. Este homem é um distinto estudioso e ele no entanto acreditava que estava agindo corretamente. Mas agora Satanás o possui completamente, como ele poderia possuir você, cairia então você em suas armadilhas.’

Quando o executor começou o seu trabalho, Servet sussurrou com voz trêmula: ‘Oh Deus, Oh Deus!’ O opositor Farel vociferou para ele: ‘Você não tem nada mais a dizer?’ Neste momento Servet respondeu para ele: ‘O que mais eu posso fazer, mas falar com Deus!’ Logo após isso, ele foi suspenso até a fogueira e amarrado às estacas. Uma coroa com enxofre foi colocada em sua cabeça. Quando as fagulhas foram acesas, um lancinante grito de horror brotou dele. ‘Misericórdia, misericórdia!’ ele clamou. Por mais de meia hora a horrível agonia continuou, porque a fogueira havia sido feita com madeira semiverde, que queima lentamente.  ‘Jesus, Filho do eterno Deus, tenha misericórdia de mim,’ o homem atormentado clamava do meio das chamas…”[11]

Apesar de que essencialmente tenhamos o mesmo acontecimento na conversão do ladrão arrependido (Lc 23.42, 43 cf. Lc 18.13) além da escritura que diz, “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo,” (At 2.21, Rm 10.13), Farel ainda considerava Servet um homem não salvo no fim da vida dele:

“Farel observou que Servet poderia ter sido salvo trocando a posição do adjetivo e confessando Cristo como o Eterno Filho em vez de Filho do Eterno Deus.”[12]

“Calvino havia então matado seu inimigo e não há nada que sugira que ele jamais tenha se arrependido deste crime. No ano seguinte ele publicou a defesa na qual mais insultos foram acrescentados a seu antigo adversário num linguajar dos mais vingativos e severos.”[13]

Assim como os católicos em 1415 queimaram João Hus[14] na estaca por razões doutrinárias, João Calvino, semelhantemente, teve Miguel Servet queimado na estaca. Mas será que doutrina era a única questão? Poderia haver outra razão, uma política?

“Como um ‘herege obstinado’ ele teve suas propriedades confiscadas sem dificuldades. Ele foi maltratado na prisão. É compreensível, portanto, que Servet tenha sido rude e insultante em sua confrontação com Calvino. Infelizmente para ele naquele momento Calvino estava lutando para manter o seu poder decadente em Genebra. Os oponentes de Calvino usaram Servet como um pretexto para atacar o governo teocrático reformista de Genebra. Tornou-se uma questão de prestígio – sempre um ponto delicado de qualquer regime ditatorial – para Calvino afirmar seu poder neste sentido. Ele se viu forçado a estimular a condenação de Servet de todas as formas possíveis ao seu alcance.”[15]

“Bastante irônico é que a execução de Servet não tenha realmente ajudado a fortalecer a Reforma de Genebra. Pelo contrário, como Fritz Barth apontou, isso ‘comprometeu gravemente o Calvinismo e colocou nas mãos dos católicos, a quem Calvino queria demonstrar sua ortodoxia cristã, a melhor arma para a perseguição dos Huguenotes, que não passavam de heréticos a seus olhos.’ O procedimento contra Servet serviu como modelo de um julgamento protestante herético… não se diferenciou em nenhum sentido dos métodos da Inquisição medieval… A Reforma vitoriosa, também, não foi capaz de resistir à tentação do poder.”[16]

Será que é possível um homem assim como João Calvino ter sido um “grande teólogo” e ao mesmo tempo ter agido desta forma repreensível e depois de tudo não demonstrar nenhum remorso? Caro leitor, você tem um coração que poderia, assim como o de João Calvino, queimar outra pessoa em uma estaca?

Vamos ilustrar isso de outra forma. Suponha que um homem da sua congregação com reputação de ser um líder espiritual capturasse o cachorro do seu vizinho, amarrasse ele a uma estaca, então usasse uma pequena quantidade de gravetos verdes para lentamente queimar o cachorro até a morte. O que você pensaria de tal pessoa, especialmente se depois de tudo isso ele não demonstrasse nenhum remorso? Você utilizaria ele para interpretar a Bíblia para você? Para tornar isso ainda pior para João Calvino, uma pessoa, diferentemente de um cachorro, foi criada à imagem e semelhança de Deus! Goste ou não, nós apenas podemos concluir dessa evidência que o coração de João Calvino estava em trevas e não iluminado, como resultado de seu ódio mortal por Servet. Na melhor das hipóteses, Calvino estava espiritualmente cego por seu ódio e portanto, espiritualmente impedido de distinguir com clareza a palavra da verdade.[17] Vejamos:

“Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.” (Ap 21.8)

“E nisto sabemos que o conhecemos; se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.” (Jo 2.3, 4)

“Todo o que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.” (1Jo 3.15)

O grego adiciona uma importante palavra a 1Jo 3.15 que é às vezes omitida nas traduções em inglês. Esta palavra é “continuando” ou “permanecendo” (conforme nesta versão em português) que afirma que assassinos não têm vida eterna permanecendo neles.

Caro leitor, João Calvino era um obscurecido em seu entendimento espiritual (Ef 4.18). Jesus disse que nós “conhecemos” as pessoas por seus frutos (Mt 12.33) – quer seja João Calvino ou outra pessoa qualquer!  Igualmente o apóstolo João escreveu: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão.” (1Jo 3.10)

Por acaso você acha que Calvino praticou “justiça” com relação a Servet? Obviamente que não.  Alguns irão bradar e bufar quanto a esta conclusão, será que poderíamos biblicamente chegar a qualquer outra?

Nenhuma outra evidência é necessária para objetivamente determinarmos a condição espiritual de Calvino. Entretanto, dois outros homens podem ser brevemente mencionados:

“Há outros dois famosos episódios relativos a Jaques Gruet e Jerome Bolsec.  Gruet, a quem Calvino considerava um libertino, escreveu cartas críticas do Consistório e ainda mais sério, petições aos reis católicos da França para intervirem nas questões políticas e religiosas de Genebra. Com a colaboração de Calvino ele foi decapitado por traição. Bolsec publicamente desafiou os ensinamentos de Calvino sobre predestinação, uma doutrina que Bolsec, juntamente com muitos outros, achavam ser moralmente repugnante. Banido da cidade em 1551, ele se vingou em 1577 publicando uma biografia de Calvino que o acusava de avareza, conduta imprópria na administração das finanças e aberração sexual.”[18]

Como Lidar com um Herético?

Como se deve lidar com um herético ou falso mestre, digo, se alguém desejar seguir as diretrizes bíblicas? Paulo escreveu a Tito e tocou exatamente nessa questão, que primeiramente começou com o assunto da qualificação para o diaconato na igreja:

“Retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes. Porque há muitos insubordinados, faladores vãos, e enganadores, especialmente os da circuncisão, aos quais é preciso tapar a boca; porque transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.” (Tt 1.9-11)

Claramente, portanto, um falso mestre deve ser “calado,” mas não matando-o, como o fundador do Calvinismo fez, mas por refutá-lo com as Escrituras.  Este é o verdadeiro método cristão.

Se o exemplo de Calvino é o padrão, então, a próxima vez que um Testemunha de Jeová ou missionário Mórmon bater à sua porta, nós devemos então fisicamente dominá-lo, amarrá-lo a uma estaca e fazer tochas humanas com eles. Você consegue imaginar um cristão professo fazendo isso? Muito menos um reputado teólogo. Caso fosse feito, você se sentiria forçado a crer que tal pessoa era realmente salva e a aderir a suas peculiares características doutrinárias?

Da mesma forma, falsos mestres devem ser abertamente citados, como Paulo abertamente citou Himeneu e Fileto, que perverteram a fé de alguns dos cristãos que Paulo conhecia:

“E as suas palavras alastrarão como gangrena; entre os quais estão Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição é já passada, e assim pervertem a fé a alguns.” (2Tm 2.17, 18)

Isto também é um importante preventivo contra o veneno espiritual de um falso mestre.

Por que Calvino violou drasticamente essas diretrizes bíblicas?  Uma vez que as diretrizes de Paulo, inspiradas pelo Espírito Santo, (e o exemplo dele) quanto a como lidar com um herético foram diametralmente opostas por Calvino, seria seguro assumir que Calvino era governado por um espírito diferente do de Paulo?  Ainda mais, por que será que estes fatos sobre a vida de João Calvino são raramente mencionados em nossos dias? A resposta para esta pergunta é obvia.  Eles são tanto embaraçosos quanto são uma refutação aos calvinistas que orgulhosamente referem-se a si mesmos pelo nome dele! Muitas pessoas estão somente agora aprendendo sobre os chocantes fatos acerca do fundador do Calvinismo enquanto leem estes pela primeira vez!

“Nenhum evento tem maior influencia no julgamento histórico de Calvino que o papel exercido na captura e execução do medico espanhol e teólogo amador Miguel Servet em 1553. Este evento ofuscou todas as outras coisas que Calvino realizou e continua embaraçando os seus modernos admiradores.”[19]

“As cinzas de Servet clamarão contra ele a medida que os nomes desses dois homens ficarem conhecidos pelo mundo.”[21]

—————————————–

[1] “Apenas por duas coisas, significativamente, Servet foi condenado – nomeando-se, Anti-trinitarianismo e Anti-pedobatismo (contra o batismo infantil),” Roland H. Bainton, Hunted Heretic (The Beacon Press, 1953), p. 207. [Comentário: Enquanto que Servet estava errado quanto à Trindade, com relação ao batismo infantil, Servet disse, “Trata-se de uma invenção do diabo, um engano do inferno para a destruição de todo o Cristianismo” (Ibid., p. 186.) Muitos cristãos de nossos dias poderiam apenas dar um “Amém” de coração a esta declaração feita sobre o batismo infantil.  Entretanto, é por isso, em parte, que Servet foi condenado a morte pelos Calvinistas!]

[2] Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Baker Book House, 1950), p. 371.

[3] The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church (Moody Press, 1982), p. 73.

[4] Stephen Hole Fritchman, Men of Liberty (Reissued, Kennikat Press, Inc., 1968), p. 8.

[5] Walter Nigg, The Heretics (Alfred A. Knopf, Inc., 1962), p. 328.

[6] Steven Ozment, The Age of Reformation 1250-1550 (New Haven and London Yale University Press, 1980), p. 370.

[7] Who’s Who in Church History (Fleming H. Revell Company, 1969), p. 252.

[8] The Heretics, p. 326.

[9] The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church, p. 366.

[10] John F. Fulton, Michael Servetus Humanist and Martyr (Herbert Reichner, 1953), p. 35.

[11] The Heretics, p. 327.

[12] Hunted Heretic, p. 214. [Comentário: Em nenhum lugar na Bíblia nós vemos este tipo de ênfase para a salvação de alguém. O ladrão que estava morrendo crucificado, o carcereiro de Filipo e Cornélio foram todos salvos através de uma mais básica fé confiante-submissa em Jesus.]

[13] Michael Servetus Humanist and Martyr, p. 36.

[14] João Hus atacou várias heresias católicas assim como a transubstanciação, a subserviência ao Papa, a crença nos santos, a eficácia da absolvição através dos padres, a obediência incondicional aos governantes terrenos e a simonia. Hus também fez das Sagradas Escrituras a única regra em matéria de religião e fé. Veja The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church, p. 201.

[15] The Heretics, p. 326.

[16] Ibid., pp. 328, 329.

[17] Por exemplo, em claro contraste com o significado que Jesus deu à parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-43) onde o Senhor disse, “o campo é o mundo”  (v. 38), João Calvino ensinou, “o campo é a igreja.” Veja o comentário de Calvino versículo a versículo do evangelho de Mateus.

[18] The Age of Reformation 1250-1550, pp. 368,369. O livro de Bolsec no qual ele acusa Calvino é citado como Histoire de la vie, moeurs, actes, doctrine, constance et mort de Jean Calvin… pub. a Lyon en 1577, ed. M. Louis-Francois Chastel (Lyon, 1875).

[19] Ibid., p. 369.

[20] Agostinho de Hipona (“Santo Agostinho”), o teólogo católico, foi um proponente anterior da predestinação do qual João Calvino tirou idéias.

[21] The Heretics, p. 328.

Autor: Dan Corner

Fonte: http://www.cacp.org.br/as-cinzas-dele-clamam-contra-joao-calvino/

História da Igreja e Calvinismo



História da Igreja e Calvinismo

Dizer que qualquer semelhança de Agostinianismo ou Calvinismo se aparta inteiramente dos ensinos dos primeiros pais da Igreja é um entendimento grosseiro, como se tornará evidente. João Calvino não foi o inventor da doutrina da Eleição Incondicional por decreto — o núcleo distintivo do Calvinismo; o fundador dessa nova doutrina foi Agostinho (c. 354-430).

De acordo com Laurence M. Vance, a “influência de Agostinho sobre a história em geral e o Cristianismo em particular é incalculável – mas não surpreendente – uma vez que, como Calvino, ele foi extensivamente um prolífico escritor…..Quando um calvinista moderno empreende substanciar o Calvinismo por uma apelo aos homens, o primeiro nome mencionado é sempre Agostinho.[1] Santo Agostinho escreveu, no entanto, entre o final do quarto e inicio do quinto século d.C.. O que os Calvinistas não conseguem substanciar é qualquer forma de Agostinianismo e Calvinismo na história da igreja antes de Agostinho no século quinto. Assim, Agostinho não manteve a tradição cristã primitiva em muitas doutrinas, especialmente, sua nova teoria da eleição incondicional (predestinação particular para a salvação de alguns).

Antes de examinarmos algumas crenças peculiares e heterodoxas que Santo Agostinho manteve, vamos primeiro descobrir qual é o consenso com respeito à eleição e livre-arbítrio entre os pais da Igreja primitiva. Todas as citações são retiradas de A Dicitionary of Early Christian Beliefs, editado por David W. Bercot (publicado por Hendrickson, 1998):

  • Justino Mártir (160 d.C): A fim de que alguns não presumam, a partir do que temos dito, que tudo acontece por uma necessidade fatal, pois é anunciado como conhecido de antemão, isso nós também explicamos. Nós aprendemos dos profetas e sustentamos ser a verdade, que as punições, castigos e boas recompensas são concedidas de acordo com o mérito das ações de cada homem. Agora, se isso não é desta foma, mas todas as coisas acontecem por destino, então, nada está em nosso próprio poder. Porque, se está predeterminado que este homem será bom e esse outro homem será mau, nem é o primeiro digno de mérito nem o último culpado. E novamente, a menos que a raça humana tenha o poder de evitar o mal e escolher o bem por livre escolha, eles não são responsáveis por suas ações (p. 285).
  • Melito (170 d.C): Portanto, não há nada que impeça você de mudar sua maneira corrupta de viver, porque você é um homem livre (p. 286).
  • Theófilo (180 d.C): Se, por outro lado, ele se voltaria para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, ele próprio seria a causa da morte para si mesmo. Porque Deus fez o homem livre e com poder sobre si mesmo (p. 286).
  • Tertuliano (210 d.C): Como a fortuna, assim é a liberdade da vontade do homem (p. 288).

Observe a ausência de Agostinianismo determinista e, deste modo, de Calvinismo em todas essas declarações. O que é seguro admitir é que os primeiros pais seriam terrivelmente inconsistentes em reivindicar o Agostinianismo determinista (e, portanto o Calvinismo) como sua teologia ao mesmo tempo em que faziam tais declarações (as quais todos os primeiros pais também apoiavam).

Mantendo uma visão presciente da eleição (ou predestinação), o ensino cristão primitivo sustenta:

  • Irineu: Deus conhece o número daqueles que não crerão (visto que Ele conhece todas as coisas de antemão). Ele os entregou à incredulidade e virou seu rosto de homens como esses (p. 284).
  • Clemente de Alexandria (195 d.C): Não somente o crente, mas até mesmo o descrente, é julgado mais retamente. Pois, desde que Deus soube em virtude de sua presciência que essa pessoa não acreditaria, Ele, entretanto, a fim de que ele possa receber a sua própria perfeição, deu-lhe a filosofia antes da fé (p. 284, ênfase adicionada).
  • Tertuliano (207 d.C): Não é a característica de um Deus bom condenar de antemão as pessoas que ainda não merecem a condenação (p. 285).
  • Hipólito (225 d.C): A palavra promulgou os mandamentos divinos declarando-os. Desse modo, ele liberou homem da desobediência. Chamou o homem à liberdade por meio de uma escolha que envolve a espontaneidade – não trazendo-o em servidão por força de necessidade (p. 288).
  • Orígenes (225 d.C): Um alma sempre tem a posse do Livre-Arbítrio – tanto quando ela está no corpo e quando ela está fora dele (p. 291).

Para os primeiros pais da Igreja, tais como Clemente de Roma, Hermas, Irineu, Clemente de Alexandria e Metódio, os eleitos eram simplesmente o povo de Deus (pp. 293-294).

Dizer que uma pessoa é eleita é admitir nada mais do que identificação. Assim, os eleitos são os Cristãos; e assim, ninguém é eleito incondicionalmente de antemão, por um mero decreto, visto que ninguém é um cristão antes da fé em Jesus Cristo.

Os primeiros pais da Igreja também foram igualmente sinergistas:

  • Inácio (105 d.C): Quando você está desejoso de fazer o bem, Deus também está pronto a ajudá-lo (p. 294).
  • Hermas (150 d.C): Para aqueles cujo coração Ele viu que se tornariam puros e obedientes a Ele, deu o poder de se arrependerem de todo o coração. Mas para aqueles cuja falsidade e maldade Ele percebeu, e vendo que tinham a intenção de se arrepender hipocritamente, Ele não concedeu o arrependimento (p. 294).
  • Clemente de Alexandria (195 d.C): O homem, por si mesmo, trabalhando e labutando em seu livre desejo, não consegue nada. Mas se ele simplesmente se mostrar muito desejoso e sério sobre isto, ele o atinge mediante a adição do poder de Deus. Porque Deus conspira com almas diligentes….Mas se eles abandonam seu entusiasmo, o Espírito que é dado por Deus também é restringido. Pois, salvar o relutante é a parte de um exercício de imposição. Mas salvar o disposto é uma manifestação de graça (p. 295).

As evidências apontam que os pais da Igreja primitiva favoreciam uma visão Arminiana do Livre-Arbítrio libertário, eleição e predestinação, sem mencionar a interação de Deus com suas criaturas (uma rejeição do determinismo). O Agostinianismo e o Calvinismo, portanto, representam um desvio aos ensinos dos cristãos primitivos, introduzindo “novas” ou “estranhas” doutrinas à Igreja.

Ademais, se o Calvinismo é tão “dolorosamente óbvio” a partir de qualquer leitura superficial do Novo Testamento, como é admitido por alguns, então porque todos os primeiros pais da Igreja, antes de Santo Agostinho no quinto século, não seguem as tradições conforme apresentadas nas Escrituras? Devemos pensar que todos os pais da Igreja abandonaram a teologia ortodoxa do primeiro século – as tradições (teológicas e litúrgicas) transmitidas a eles por São Paulo, São Pedro e São João?

O Imperador Constantino (237-337 d.C), de acordo com Laurence M. Vance,

tornou-se o único governante do braço ocidental do Império Romano, após derrotar Maxêncio (c. 283-312) na famosa batalha da Ponte Mílvian, perto de Roma, em 312. Foi aqui que Constantino afirmou ter visto uma visão de uma cruz brilhante que o levou a vitória. . . . .Depois de supostamente atribuir a sua vitória ao “Deus Cristão”, Constantino se uniu a Licínio (c. 265-325), um dos imperadores do Oriente, na emissão em 313, em Milão, de um decreto de tolerância em relação ao Cristianismo.[2]

Por esse tempo, o casamento da Igreja com o estado iria revelar-se difícil para o evangelho. Assim, em muitos casos, os remidos sentaram-se ao lado dos não remidos em cada serviço da Igreja. Teodósio, sucessor de Constantino, por volta de 381, proclamou a todas as pessoas que elas “firmemente aderissem à religião que foi ensinada por São Pedro aos romanos, que tem sido fielmente preservada pela tradição”.[3]

Santo Agostinho (Aurélio Agostinho, 354-430) nasceu no Norte da África e estudou em Cartago. Antes de sua conversão, ele era lascivo, um jovem homem sexualmente promiscuo, consumido pelo orgulho e arrogância. Ele se encantou pela filosofia de Cícero e juntou-se com a religião gnóstica maniqueísta. Essas coisas teriam um profundo impacto sobre a sua teologia em anos posteriores.

Ao ouvir a voz de uma criança, dizendo: “Toma e lê”, Agostinho virou-se para o primeiro texto sobre o qual os olhos podiam fixar. Esse texto foi Romanos 13:14, que o convenceu de seu estilo de vida sexualmente perverso. Seu arrependimento foi seguido pelo batismo na Páscoa seguinte. Ele então retornou a Roma por um ano. Após a morte de sua mãe, ele retornou a sua cidade natal e entrou para o monastério para estudar teologia.

Além de suas Confissões e a Cidade de Deus, ele é mais famoso por três debates. Ele debateu fervorosamente a heresia maniqueísta, bem como os Doantistas e, por último, Pelágio. Os debates com Pelágio seriam seu mais famoso conflito teológico. No entanto, Santo Agostinho não estava apenas combatendo contra Pelágio, mas também contra a maioria dos pais da Igreja primitiva, pelo menos sobre o assunto da eleição incondicional e livre-arbítrio. Novamente Vance escreve:

Esta é seu conflito teológico mais significante, e um que se aplica diretamente na questão do Calvinismo, pois como os calvinistas David Steele e Curtis Thomas sustentam: “As doutrinas básicas da posição calvinista foram vigorosamente defendidas por Agostinho contra Pelágio durante o quinto século.” E por causa da moderna comparação dos sistemas opostos do Agostinianismo e o Pelagianismo com o Calvinismo e o Arminianismo que Pelágio e seu sistema demandam mais estudo.[4]

Muitos dos Protestantes de hoje rejeitam muitos dos ensinos de Agostinho, inclusive a crença em alguns (e em alguns casos todos) dos seguintes:

  • inspiração dos livros Apócrifos;
  • a hermenêutica alegórica subjetiva;
  • teologia da substituição;
  • regeneração batismal (e até mesmo necessária para a salvação das crianças);
  • a falsa ideia que o martírio poderia substituir o batismo;
  • cessacionismo;
  • amilenismo;
  • a sucessão apostólica dos Bispos a partir de São Pedro;
  • a impecabilidade de Maria;
  • a intercessão dos santos mortos;
  • a adoração das relíquias;
  • purgatório;
  • a ideia de que o grande pecado atrás da miséria humana é a relação sexual e é considerada pecaminosa a menos que usada para a procriação;
  • defesa da poligamia se for para a propagação;
  • a noção de que a graça de Deus é distribuída por meio dos sacramentos;
  • e, é claro, que Deus tem eleito incondicionalmente salvar alguns e não outros por um simples decreto e para a sua glória.[5]

Quando se considera a quantidade de falsos (alguns diriam mesmo heréticos) pontos de vista que ele possui, alguém pergunta como ele se tornou uma respeitada “autoridade” na igreja. Em alguns círculos, citar Agostinho é o mesmo que citar uma autoridade, tal como as Escrituras.

Como já notado (e admitido por todos que estudaram história da Igreja), Agostinho foi o primeiro a introduzir a teoria que Deus elegeu incondicionalmente somente alguns para a salvação. Nessa admissão, ele não atribui eleição ao pré-conhecimento de Deus, como fizeram todos os seus antecessores, quatro séculos antes dele, mas por decisão prévia e deleite exclusivo de Deus.

Mais chocante, no entanto, é esta crença: “é, de fato, de se admirar, e de se admirar grandemente, que para alguns de seus próprios filhos – que Ele tem regenerado em Cristo – para quem Ele tem dado fé, esperança e amor, Deus não dá perseverança também”.[6] (ênfase adicionada) Nunca se ouve qualquer citação calvinista afirmando este entendimento de Agostinho (embora Calvino também tenha ecoado estes sentimentos em seus escritos).

Com o devido reconhecimento, esta declaração poderia ter preenchido os primeiros escritos de Agostinho, em oposição ao Agostinho final. Tal distinção é importante se quisermos ser justos, porque nem sempre ele abraçou suas crenças de forma consistente a totalidade de sua vida. Mas uma teoria que ele manteve consistentemente era a sua crença que Deus elegeu alguns incondicionalmente, passando sobre o resto – a maioria da humanidade.

Entretanto, compare essa nova doutrina com a visão de presciência de todos os pais da igreja primitiva, incluindo Justino Mártir, Taciano, Clemente de Roma, Melito, Teófilo, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Bardesanes, Hipólito e Orígenes, que viveram entre o primeiro e o terceiro século antes de Agostinho. Claramente, a história da Igreja se levanta contra o entendimento Agostiniano (e por padrão o Calvinista) da eleição, livre-arbítrio, salvação e determinismo.

Por William Birch

Tradução: Walson Sales

Fonte: http://www.classicalarminian.com/2012/06/church-history-and-calvinism.html (acesso em 07/01/2013)

___________________________

[1]Laurence M. Vance, The Other Side of Calvinism (Pensacola: Vance Publications, 1999), 39.

[2] Ibid., 43-44.

[3] Ibid., 46.

[4] Ibid., 49-50.

[5] Ibid., 53-59.

[6] Ibid., 58.

Fonte: http://www.cacp.org.br/historia-da-igreja-e-calvinismo/