Herois da fé.
GUILHERME CAREY
Pai das missões modernas (1761-1834)
Diz-se que Guilherme Carey, fundador das missões atuais, não era dotado de
inteligência superior e nem de qualquer dom que deslumbrasse os homens.
Entretanto, foi a persistência o segredo do êxito da sua vida. Quando Deus o
chamava a iniciar qualquer tarefa, permanecia firme, dia após dia até
acabá-la. Deixou o Senhor utilizar-se de sua vida, não somente para evangelizar
durante um período de quarenta e um anos no estrangeiro, mas também para
executar a façanha por incrível que pareça, de traduzir as Sagradas
Escrituras em mais que trinta línguas. Com a idade de vinte anos, casou-se.
Porém os membros da igreja onde pregava eram pobres e Carey teve de continuar
seu ofício de sapateiro para ganhar o pão cotidiano. A sociedade missionária,
apesar de tantos contratempos, continuou a confiar em Deus; conseguiram
granjear dinheiro e compraram passagem para a Índia em um navio dinamarquês.
Uma vez mais Carey rogou à sua querida esposa que o acompanhasse. Ela ainda
persistia na recusa e nosso herói, ao despedir-se dela, disse: "Se eu
possuísse o mundo inteiro, daria alegremente tudo pelo privilégio de levar-te e
os nossos queridos filhos comigo; mas o sentido do meu dever sobrepuja todas as
outras considerações. Não posso voltar para trás sem incorrer em culpa a minha
alma." Porém, antes de o navio partir, um dos missionários foi à casa de
Carey. Grande foi a surpresa e o regozijo de todos ao saberem que esse missionário
conseguiu induzir a esposa de Carey a acompanhar o seu marido. Deus comoveu o
coração do comandante do navio a levá-la em companhia dos filhos, sem pagar
passagem. Carey percebeu a necessidade imperiosa de o povo possuir a Bíblia na
própria língua e, sem demora, entregou-se à tarefa de traduzi-la. A rapidez com
que aprendeu as línguas da Índia é uma admiração para os maiores lingüistas.
Durante o período de quarenta e um anos, que passou na Índia, não visitou a
Inglaterra. Falava, embora com dificuldade, mais de trinta línguas da Índia,
dirigia a tradução das Escrituras em todas elas e foi apontado ao serviço
árduo de tradutor oficial do governo. Escreveu várias gramáticas indianas e
compilou notáveis dicionários dos idiomas bengali, marati e sânscrito. O
dicionário do idioma bengali consta de três volumes e inclui todas as palavras
da língua, traçadas até a sua origem e definidas em todos os seus sentidos. Com
o avançar da idade, seus amigos insistiam em que diminuísse os seus esforços,
mas a sua aversão à inatividade era tal, que continuava trabalhando mesmo
quando a força física não dava para a necessária energia mental. Por fim,
viu-se obrigado a ficar de cama, onde continuava a corrigir as provas das
traduções. Finalmente, em 9 de junho de 1834, com a idade de 73 anos, Guilherme
Carey dormiu em Cristo. A humildade era uma das características mais
destacadas da sua vida. Quando Guilherme Carey chegou à Índia, os ingleses
negaram-lhe permissão para desembarcar. Ao morrer, porém, o governo mandou içar
as bandeiras a meia haste em honra de um herói que fizera mais para a Índia do
que todos os generais britânicos.
ADONIRAM JUDSON
Missionário, pioneiro à Birmânia
(1788-1850) O missionário, magro e enfraquecido pelos sofrimentos e privações,
foi conduzido entre os mais endurecidos criminosos, com gado, a chicotadas e
sobre a areia ardente, para a prisão. Sua esposa conseguiu entregar-lhe um
travesseiro para que pudesse dormir melhor no duro solo da prisão. Porém ele
descansava ainda melhor porque sabia que dentro do travesseiro, que tinha
abaixo da cabeça, estava escondida a preciosa porção da Bíblia que traduzira
com grandes esforços para a língua do povo que o perseguia. Aconteceu que o
carcereiro requisitou o travesseiro para o seu próprio uso! Que podia fazer o
pobre missionário para readquirir seu tesouro? A esposa então preparou, com
grandes sacrifícios, um travesseiro melhor e conseguiu trocá-lo com o do
carcereiro. Dessa forma a tradução da Bíblia foi conservada na prisão por quase
dois anos; a Bíblia inteira, depois de completada por ele, foi dada, pela
primeira vez, aos milhões de habitantes da Birmânia.Em toda a história, desde o
tempo dos apóstolos, são poucos os nomes que nos inspiram tanto a
esforçarmo-nos pela obra missionária como os nomes desse casal, Ana e Adoniram
Judson. O CHAMADO Judson, com quatro dos seus colegas, reuniram-se junto a um
montão de feno, para orarem e ali solenemente dedicarem, perante Deus, suas
vidas para levar o Evangelho "aos confins da terra". Não havia qualquer
junta de missões para os enviar. Contudo, Deus honrou a dedicação dos moços,
tocando nos corações dos crentes, para suprirem o dinheiro. Judson foi chamado,
então, a ocupar um lugar no corpo docente na universidade de Brown, mas recusou
o convite. Depois foi chamado a pastorear uma das maiores igrejas da América do
Norte. Este convite, também, foi rejeitado. Foi grande o desapontamento de seu
paí e o choro de sua mãe e irmã ao saberem que Judson se oferecera para a obra
de Deus no estrangeiro, onde nunca fora proclamado o Evangelho. Judson e sua
esposa embarcaram para a Índia em 1812, passando quatro meses a bordo do navio.
Recusou o emprego de intérprete do governo, com salário elevado, escolhendo
antes sofrer as maiores privações e o opróbrio, para ganhar as almas dos pobres
birmaneses para Cristo. Durante onze meses, esteve preso em Ava. (Ava era
naquele tempo a capital da Birmânia.) Passou alguns dias, com mais sessenta
outros sentenciados à morte, encerrado em um edifício sem janelas, escuro e quente,
abafado e imundo em extremo. Passava o dia com os pés e mãos no tronco. Para
passar a noite, o carcereiro enfiava-lhe um bambu entre os pés acorrentados,
juntando-o com outros prisioneiros e, por meio de cordas, arribava-os para
apenas os ombros descansarem no chão. Além desse sofrimento, tinha de ouvir
constantemente gemidos misturados com o falar torpe dos mais endurecidos
criminosos da Birmânia. Vendo os outros prisioneiros arrastados para fora para
morrer às mãos do carrasco, Judson podia dizer: "Cada dia morro". As
cinco cadeias de ferro pesavam tanto, que levou as marcas das algemas no corpo
até a morte. Certamente ele não teria resistido, se a sua fiel esposa não
tivesse conseguido permissão do carcereiro para, no escuro da noite, levar-lhe
comida e consolá-lo com palavras de esperança.Um dia porém, ela não apareceu;
essa ausência durou vinte longos dias. Ao reaparecer, trazia nos braços uma
criancinha recém-nascida. Judson, uma vez liberto da prisão, apressou-se o mais
possível a chegar a casa, mas tinha as pernas estropiadas pelo longo tempo que
passara no cárcere. Fazia muitos dias que não recebia notícias de sua querida
Ana! - Ela ainda vivia? Por fim, encontrou-a, ainda viva, mas com febre, e
próximo de morte. Dessa vez ela ainda se levantou, mas antes de completar 14
anos na Birmânia, faleceu. Comove a alma ao ler a dedicação de Ana Judson ao
marido, e a parte que desempenhou na obra de Deus, e em casa até o dia da sua
morte. Alguns meses depois da morte da esposa de Judson, a sua filha também
morreu. Durante os seis longos anos que se seguiram, ele trabalhou sozinho,
casando-se, então, com a viúva de outro missionário. A nova esposa, gozando os
frutos dos esforços incessantes na Birmânia, mostrou-se tão dedicada ao marido
como a primeira. Judson perseverou durante vinte anos para completar a maior
contribuição que se podia fazer à Birmânia, a tradução da Bíblia inteira na
própria língua do povo. Depois de trabalhar constantemente no campo
estrangeiro durante trinta e dois anos, para salvar a vida da esposa,
embarcou com ela e três dos filhos, de volta à América, sua terra natal. Porém,
em vez de ela melhorar da doença que sofria, como se esperava, morreu durante a
viagem, sendo enterrada em Santa Helena, onde o navio aportou. - Quem poderá
descrever o que Judson sentiu ao desembarcar nos Estados Unidos, quarenta e
cinco dias depois da morte da sua querida esposa?! Ele, que estivera ausente
durante tantos anos da sua terra, sentia-se agora perturbado acerca da
hospedagem nas cidades de seu país. Surpreendeu-se, depois de desembarcar, ao
verificar que todas as casas se abriam para recebê-lo. Seu nome tornara-se
conhecido de todos. Grandes multidões afluíam para ouvi-lo pregar. Porém,
depois de passar trinta e dois anos ausente na Birmânia, naturalmente,
sentia-se como se estivesse entre estrangeiros, e não queria levantar-se
diante do público para falar na língua materna. Também sofria dos pulmões e era
necessário que outrem repetisse para o povo o que ele apenas podia dizer
balbuciando. Passara apenas oito meses entre seus patrícios, quando se casou de
novo e embarcou pela segunda vez para a Birmânia. Continuou a sua obra naquele
país, sem cansar, até alcançar a idade de sessenta e um anos. Judson foi,
então, chamado a estar com o seu Mestre enquanto viajava longe da família.
Conforme o seu desejo, foi sepultado em alto mar. Adoniram Judson costumava
passar muito tempo orando de madrugada e de noite. Diz-se que gozava da mais
íntima comunhão com Deus enquanto caminhava apressadamente. Os filhos, ao
ouvirem seus passos firmes e resolutos dentro do quarto, sabiam que seu pai
estava levando suas orações ao trono da graça. Sua esposa conta que, durante a
sua última doença, antes de falecer, ela leu para ele a notícia de certo
jornal, acerca da conversão de alguns judeus na Palestina, justamente onde
Judson queria trabalhar antes de ir à Birmânia. Esses judeus, depois de lerem
a história dos sofrimentos de Judson na prisão de Ava, foram inspirados a
pedir, também, um missionário e assim iniciou-se uma grande obra entre eles.
Por muitos anos, até pouco antes da sua morte, Judson considerava os longos
meses de horrores da prisão em Ava, como inteiramente perdidos à obra
missionária. No começo do trabalho na Birmânia, Judson concebeu a idéia de
evangelizar, por fim, todo o país. A sua maior esperança era ver durante a sua
vida, uma igreja de cem birmaneses salvos e a Bíblia impressa na língua desse
país. No ano da sua morte, porém, havia sessenta e três igrejas e mais de sete
mil batizados, sendo os trabalhos dirigidos por cento e sessenta e três
missionários, pastores e auxiliares. As horas que passou diariamente
suplicando ao Deus que dá mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, não
foram perdidas. Até aquele dia, quando todo o joelho se dobrará perante o
Senhor Jesus, os corações crentes serão movidos aos maiores esforços, pela
lembrança de Ana Judson, enterrada debaixo do hopiá (uma árvore) na Birmânia;
de Sara Judson, cujo corpo descansa na ilha pedregosa de Santa Helena e de
Adoniram Judson, sepultado nas águas do oceano Índico.
JORGE MÜLLER Apóstolo da fé
(1805-1898)
"Pela fé, Abel... Pela fé,
Noé... Pela fé, Abraão..." Assim é que o Espírito Santo conta as
incríveis proezas que Deus fez por intermédio dos homens que ousavam confiar
unicamente nele. Foi no século XIX que Deus acrescentou o seguinte a essa
lista: "Pela fé, Jorge Müller levantou orfanatos, alimentou milhares de
órfãos, pregou a milhões de ouvintes em redor do globo e ganhou multidões de
almas para Cristo". Um mês depois de seu casamento, colocou uma caixa no
salão de cultos e anunciou que podiam deitar lá as ofertas para o seu sustento
e que, daí em diante, não pediria mais nada, nem a seus amados irmãos; porque,
como ele disse, "Sem me aperceber, tenho sido levado a confiar no braço de
carne, mas o melhor é ir diretamente ao Senhor"O primeiro ano findou com
grande triunfo e Jorge Müller disse aos irmãos que, apesar da pouca fé ao
começar, o Senhor tinha ricamente suprido todas as suas necessidades materiais
e, o que foi ainda mais importante, tinha-lhe concedido o privilégio de ser um
instrumento na sua obra. O ano seguinte foi, porém, de grande provação, porque
muitas vezes não lhe restava nem um xelim. E Jorge Müller acrescenta que no
momento próprio a sua fé sempre foi recompensada com a chegada de dinheiro ou
alimentos. Certo dia, quando só restavam oito xelins, Müller pediu ao Senhor
que lhe desse dinheiro. Esperou muitas horas sem qualquer resposta. Então
chegou uma senhora e perguntou: - "O irmão precisa de dinheiro?" Foi
uma grande prova da sua fé, porém, o pastor respondeu: - "Minha irmã, eu
disse aos irmãos, quando abandonei meu salário, que só informaria o Senhor a
respeito das minhas necessidades". - "Mas", respondeu a senhora,
"Ele me disse que eu lhe desse isto", e colocou 42 xelins na mão do
pregador. Nesses dias, quando começou a provar as promessas de Deus, ficou
comovido pelo estado dos órfãos e pobres crianças que encontrava nas ruas.
Ajuntou algumas dessas crianças para comer consigo às oito horas da manhã e a
seguir, durante uma hora e meia, ensinava-lhes as Escrituras. A obra aumentou
rapidamente. Quanto mais crescia o número para comer, tanto mais recebia para
alimentá-las até se achar cuidando de trinta a quarenta menores. Certa noite,
quando lia a Bíblia, ficou profundamente impressionado com as palavras:
"Abre bem a tua boca, e ta encherei" (Salmo 81.10). Foi levado a
aplicar essas palavras ao orfanato, sendo-lhe dada a fé de pedir mil libras ao
Senhor; também pediu que Deus levantasse irmãos com qualificação para cuidar
das crianças. Desde aquele momento, esse texto (Salmo 81.10), serviu-lhe como
lema e a promessa se tornou em poder que determinou todo o curso da sua vida.
Deus não demorou muito a dar a sua aprovação de alugar uma casa para os
órfãos. Foi apenas dois dias depois de começar a pedir, que ele escreveu no seu
diário: "Hoje recebi o primeiro xelim para a casa dos órfãos".
Quatro dias depois foi recebida a primeira contribuição de móveis: um
guarda-roupa; e uma irmã ofereceu dar seus serviços para cuidar dos órfãos.
Jorge Müller escreveu naquele dia que estava alegre no Senhor e confiante em
que Ele ia completar tudo. No dia seguinte, Jorge Müller recebeu uma carta com
estas palavras: "Oferecemo-nos para o serviço do orfanato, se o irmão
achar que temos as qualificações. Oferecemos também todos os móveis, etc, que o
Senhor nos tem dado. Faremos tudo isto sem qualquer salário, crendo que, se for
a vontade do Senhor usar-nos, Ele suprirá todas as nossas necessidades".
Desde aquele dia, nunca faltaram, no orfanato, auxiliares alegres e devotados,
apesar de a obra aumentar mais depressa do que Jorge Müller esperava. Três
meses depois, foi que conseguiu alugar uma grande casa e anunciou a data da
inauguração do orfanato para o sexo feminino. No dia da inauguração, porém,
ficou desapontado: nenhuma órfã foi recebida. Somente depois de chegar a casa
é que se lembrou de que não as tinha pedido. Naquela noite humilhou-se rogando
a Deus o que anelava. Ganhou a vitória de novo, pois veio uma órfã no dia
seguinte. Quarenta e duas pediram entrada antes de findar o mês, e já havia
vinte e seis no orfanato. Durante o ano, houve grandes e repetidas provas de
fé. Aparece, por exemplo, no seu diário: "Sentindo grande necessidade
ontem de manhã, fui dirigido a pedir com insistência a Deus e, em resposta, à
tarde, um irmão deu-me dez libras". Muitos anos antes da sua morte,
afirmou que, até aquela data, tinha recebido da mesma forma 5.000 vezes a
resposta, sempre no mesmo dia em que fazia o pedido. Era seu costume, e
recomendava também aos irmãos, guardar um livro. Numa página assentava seu
pedido com a data e no lado oposto a data em que recebera a resposta. Dessa
maneira, foi levado a desejar respostas concretas aos seus pedidos e não havia
dúvida acerca dessas respostas. Os cinco prédios construídos de pedras lavradas
e situados em Ashley Hill, Bristol, Inglaterra, com 1.700 janelas e lugar para
acomodar mais de 2.000 pessoas, são testemunhas atuais dessa grande fé de que
ele escreveu. São de Jorge Müller estas palavras: "Muitas repetidas vezes
tenho-me encontrado em posição muito difícil, não só com 2.000 pessoas comendo
diariamente às mesas, mas também com a obrigação de atender a todas as demais
despesas, estando a nossa caixa com os fundos esgotados. Havia ainda 189
missionários para sustentar, cerca de 100 colégios com mais ou menos 9.000
alunos, além de 4.000.000 de tratados para distribuir, tudo sob nossa
responsabilidade, sem que houvesse dinheiro em caixa para as despesas".
Com a idade de 69 anos Jorge Müller iniciou suas viagens, nas quais pregou
centenas de vezes em quarenta e duas nações, a mais de três milhões de pessoas.
Com a idade de 90 anos pregou o sermão fúnebre da segunda esposa, como o
fizera na morte da primeira. Uma pessoa que assistiu a esse enterro, assim se
expressou: -"Tive o privilégio, sexta-feira, de assistir ao enterro da
senhora Müller... e presenciar um culto simples, que foi, talvez, pelas suas
peculiaridades, o único na história do mundo: Um venerável patriarca preside
ao culto do início ao fim. Com a idade de noventa anos, permanece ainda cheio
daquela grande fé que o tem habilitado a alcançar tanto, e que o tem sustentado
em emergência, problemas e trabalhos duma longa vida..." No ano de 1898,
com a idade de noventa e três anos, na última noite antes de partir para estar
com Cristo, sem mostrar sinal de diminuição de suas forças físicas, deitou-se
como de costume. Na manhã do dia seguinte foi "chamado", na
expressão de um amigo ao receber as notícias que assim explicam a partida:
"O querido ancião Müller desapareceu de nosso meio para o Lar, quando o
Mestre abriu a porta e o chamou ternamente, dizendo: 'Vem!'" Os jornais
publicaram, meio século depois da sua morte, a seguinte notícia: "O orfanato
de Jorge Müller, em Bristol, permanece como uma das maravilhas do mundo. Desde
a sua fundação, em 1836, a cifra que Deus tem concedido, unicamente em
resposta às orações, sobe a mais de vinte milhões de dólares e o número de
órfãos ascende a 19.935.
JOÃO PATON Missionário aos
antropófagos (1824-1907)
Perto de Dalswinton, na Escócia,
morava João Paton. Por fim chegou o dia em que João tinha de deixar o lar
paterno. Sem o dinheiro para a passagem e com tudo que possuía, inclusive uma
Bíblia embrulhada num lenço, saiu a pé para trabalhar e estudar em Glasgow. O
pai o acompanhou até uma distância de nove quilômetros. O último quilômetro,
antes de se separarem um do outro, os dois caminhavam sem poderem falar uma só
palavra - o filho sabia pelo movimento dos lábios do pai que este orava em seu
coração por ele. Ao chegarem ao lugar combinado para se separarem, o pai
balbuciou: "Deus te abençoe, meu filho! O Deus de teu pai te prospere e
te guarde de todo o mal". Depois de se abraçarem, o filho saiu correndo
enquanto o pai, em pé, no meio da estrada, imóvel, o chapéu na mão e com
lágrimas correndo pelas faces, continuava a orar em seu coração. Alguns anos
depois, o filho testificou de que essa cena, gravada na sua alma, o estimulava
como um fogo inextinguível a não desapontar o pai no que esperava dele, seu
filho, que seguisse o seu bendito exemplo de andar com Deus. Durante os três
anos de estudos em Glasgow, apesar de trabalhar com as próprias mãos para se
sustentar, João Paton, no gozo do Espírito Santo, fez uma grande obra na seara
do Senhor. Contudo, soava-lhe constantemente aos ouvidos o clamor dos selvagens
nas ilhas do Pacífico e isso foi, antes de tudo, o assunto que ocupava as suas
meditações e orações diárias. Havia outros para continuar a obra que fazia em
Glasgow, mas quem desejava levar o Evangelho a esses pobres bárbaros?! Ao
declarar sua resolução de trabalhar entre os antropófagos das Novas Hébridas,
quase todos os membros da sua igreja se opuseram à sua saída. Um muito estimado
irmão assim se exprimiu: "Entre os antropófagos! será comido por
eles!" A isso João Paton respondeu: 'O irmão é muito mais velho que eu,
breve será sepultado e comido por vermes; declaro ao irmão que, se eu conseguir
viver e morrer servindo o Senhor Jesus e honrando o seu nome, não me importarei
ser comido por antropófagos ou por vermes; no grande dia da ressurreição, o
meu corpo se levantará tão belo como o seu, na semelhança do Redentor
ressuscitado". De fato, as Novas Hébridas haviam sido batizadas com sangue
de mártires. Os dois missionários, Williams e Harris, enviados para
evangelizar essas ilhas, poucos anos antes desse tempo, foram mortos a
cacetadas, e seus cadáveres cozidos e comidos. "Os pobres selvagens não
sabiam que assassinavam seus amigos mais fiéis; assim os crentes em todos os
lugares, ao receberem as notícias do martírio dos dois, oraram com lágrimas por
esses povos." E Deus ouviu as súplicas, chamando, entre outros, a João
Paton. Porém, a oposição à sua saída era tal, que ele resolveu escrever a seus
pais; pela resposta veio a saber que eles o haviam dedicado para tal serviço,
no dia do seu nascimento. Desde esse momento, João Paton não mais duvidou da
vontade de Deus, e assentou no seu coração gastar a vida servindo aos indígenas
das ilhas do Pacífico. A esposa de Paton era uma ajudadora esforçada e dentro
de poucas semanas reuniu oito mulheres da ilha e as instruía diariamente. Três
meses depois da chegada dos missionários à ilha, a esposa de Paton faleceu de
maleita e um mês depois o filhinho também morreu. - Quem pode avaliar as
saudades de Paton, durante os anos que trabalhou sem ajudadora em Tana?!
Apesar de quase haver morrido também de maleita, de os crentes insistirem para
que voltasse à sua terra, e de os indígenas fazerem plano após plano de matá-lo
para o comerem, esse herói permaneceu orando e trabalhando fielmente no posto
onde Deus o colocara.Um templo foi construído e um bom número se congregava
para ouvir a mensagem divina. Paton não somente conseguiu reduzir a língua dos
tanianos à forma escrita, mas também traduziu uma parte das Escrituras, a qual
imprimiu, apesar de não conhecer a arte tipográfica. Acerca dessa gloriosa
façanha de imprimir o livro em Taniano, assim escreveu: "Confesso que
gritei de alegria quando a primeira folha saiu do prelo, tendo todas as páginas
na ordem própria; era uma hora da madrugada. Eu era o único homem branco na
ilha e havia horas em que todos os nativos dormiam. Contudo, atirei ao ar o
chapéu e dancei como um menino, por algum tempo, ao redor do prelo".
Depois de Paton haver passado três anos em Tana, o casal de missionários que
vivia na ilha vizinha, Erromanga, foi martirizado barbaramente a machadadas, em
pleno dia. Ao completar quatro anos de estada em Tana, o ódio dos indígenas dessa
ilha chegou ao auge. Diversas tribos combinaram matar o "indefeso"
missionário e findar, assim, com a religião do Deus de amor, em toda a ilha.
Contudo, como ele mesmo se declarava imortal até findar sua obra na terra,
evitava, em pleno campo, os inúmeros golpes de lanças, machadinhas e cacetes,
armados pelas mãos dos indígenas, e assim conseguiu escapar para a ilha de
Aneitium. Planejou então ocupar-se na obra de tradução do resto dos Evangelhos
na língua taniana, enquanto esperava a oportunidade de voltar a Tana. Contudo,
sentiu-se dirigido a aceitar a chamada para ir à Austrália. Em poucos meses,
animou as igrejas ali a comprarem um navio à vela, para servir aos
missionários. Despertou-as, também, a contribuírem liberalmente e a enviarem
mais missionários a evangelizar todas as ilhas. Acerca da sua viagem à
Escócia, depois de alguns anos nas Novas Hébridas, ele escreveu: "Fui, de
trem, a Dunfries e lá achei condução para o querido lar paterno, onde fui
acolhido com muitas lágrimas. Havia somente cinco curtíssimos anos que saíra
desse santuário com a minha jovem esposa, e agora, ai de mim! - mãe e filhinho
jaziam no túmulo, em Tana, nos braços um do outro, até o dia da
ressurreição... Não foi com menos gozo, apesar de sentir-me angustiado, que, poucos
dias depois, me encontrei com os pais da minha querida falecida esposa."
Antes de deixar a Escócia, para nova viagem, Paton casou-se com a irmã de
outro missionário. Chamada por Deus a trabalhar entre os povos mergulhados nas
trevas das Novas Hébridas, ela serviu como fiel companheira de seu marido, por
muitos anos. De volta às ilhas, Paton foi constrangido pelo voto de todos os
missionários a não voltar a Tana, mas abrir a obra na vizinha ilha de Aniwa.
Dessa forma, tinha de aprender outra língua e começar tudo de novo. Na obra de
preparar o terreno para a construção da casa, Paton ajuntou dois cestos de
ossos humanos de vítimas comidas pelo povo da ilha! "Quando essas pobres
criaturas começavam a usar um pedacinho de chita, ou um saiote, era sinal exterior
de uma transformação, apesar de estarem longe da civilização. E quando
começavam a olhar para cima, e a orar Àquele a quem chamavam de 'Pai, nosso
Pai', meu coração se derretia em lágrimas de gozo; e sei por certo que havia
um coração divino nos céus que se regozijava também." Contudo, como em
Tana, Paton considerava-se imortal até completar a obra que lhe fora designada
por Deus. Inúmeras vezes evitou a morte agarrando a arma levantada contra ele
pelos selvagens para o matarem. Por fim, a força das trevas unidas contra o
Evangelho em Aniwa cedeu. Isso data do tempo em que cavou um poço na ilha. Para
os indígenas, a água de coco, para satisfazer a sede, era suficiente, porque
se banhavam no mar e usavam pouco a água para cozinhar - e nenhuma para lavar
a roupa! Mas para os missionários, a falta de água doce era o maior sacrifício
e Paton resolveu cavar um poço. No início, os indígenas auxiliaram-no na obra,
apesar de considerarem o plano, "do Deus de Missi dar chuva de
baixo", concepção de uma mente avariada. Mas depois, amedrontados pela
profundeza da cavidade, deixaram o missionário a cavar sozinho, dia após dia,
enquanto o contemplavam de longe, dizendo uns aos outros: - "Quem jamais
ouviu falar em chuva que vem debaixo?! Pobre Missi! Coitado!" Quando o
missionário insistia em dizer que o abastecimento de água em muitos países
vinha de poços, eles respondiam: - "É assim que se dá com os doidos;
ninguém pode desviá-los de suas idéias loucas." Depois de longos dias de
labor enfadonho, Paton alcançou terra úmida. Confiava em Deus obter água doce,
em resposta às suas orações; contudo, nessa altura, ao meditar sobre o efeito
que causaria entre o povo, sentia-se quase tomado do horror ao pensar que
podia encontrar água salgada. "Sentia-me", escreveu ele, "tão
comovido que fiquei molhado de suor e tremia-me todo o corpo, quando a água
começou a borbulhar debaixo e a encher o poço. Tomei um pouco de água na mão,
levei-a à boca para prová-la. Era água! Era água potável! era água viva do poço
de Jeová!" Os chefes indígenas com seus homens a tudo assistiam. Era uma
repetição, em ponto pequeno, dos israelitas rodeando Moisés, quando ele fez
água sair da rocha. O missionário, depois de passar algum tempo louvando a
Deus, ficou mais calmo, desceu novamente, encheu um jarro da"chuva que
Deus Jeová lhe dava pelo poço", e entregou-o ao chefe. Este sacudiu o
jarro para ver se realmente havia água dentro; então tomou um pouco na mão e,
não satisfeito com isso, levou à boca um pouco mais. Depois de revolver os
olhos de alegria, bebeu-a e rompeu em gritos: "Chuva! Chuva! É chuva
mesmo! - Mas como a arranjou?" Paton respondeu: - "Foi Jeová, meu
Deus, quem a deu da sua terra em resposta ao nosso labor e orações. Olhai e
vede por vós mesmos como borbulha a terra!" Não havia um homem entre eles
que tivesse coragem de chegar-se perto da boca do poço; então formaram uma fila
comprida e, segurando-se uns aos outros pelas mãos, avançaram até que o homem
da frente pudesse olhar para dentro do poço; a seguir o que tinha olhado
passava para a retaguarda, deixando o segundo olhar para a "chuva de
Jeová, mui embaixo". Depois de todos olharem, um por um, o chefe
dirigiu-se a Paton e disse: "Missi, a obra de seu Deus Jeová é admirável,
é maravilhosa! Nenhum dos deuses de Aniwa jamais nos abençoou tão
maravilhosamente. - Mas, Missi, Ele continuará para sempre a dar chuva por essa
forma?, ou acontecerá como a chuva das nuvens?" O missionário explicou,
para gozo indizível de todos, que essa bênção era permanente e para todos os
aniwanianos. Os nativos experimentaram, durante os anos que se seguiram, em
seis ou sete dos lugares mais prováveis, perto de várias vilas, cavar poços.
Todas as vezes que o fizeram ou encontraram pederneira ou o poço dava água
salgada. Diziam entre si: - "Sabemos cavar, mas não sabemos orar como
Missi e, portanto, Jeová não nos dá chuva debaixo!" Num domingo, depois
que Paton alcançou água do poço, o chefe Namakei convocou o povo da ilha.
Fazendo seus gestos com a machadinha na mão, dirigiu-se aos ouvintes da
seguinte maneira: - "Amigos de Nakamei, todos os poderes do mundo não
podiam obrigar-nos a crer que fosse possível receber chuva das entranhas da
terra, se não a tivéssemos visto com os próprios olhos e provado com a
boca... Desde já, meu povo, devo adorar o Deus que nos abriu o poço e nos dá
chuva debaixo. Os deuses de Aniwa não podem socorrer-nos como o Deus de Missi.
Para todo o sempre sou um seguidor de Deus Jeová. Todos vós que quiserdes fazer
o mesmo, tomai os ídolos de Aniwa, os deuses que nossos pais temiam e lançai-os
aos pés de Missi... Vamos a Missi para ele nos ensinar como devemos servir a
Jeová... que enviou seu Filho Jesus para morrer por nós e nos levar aos
céus." Durante os dias que se seguiram, grupo após grupo, alguns dos silvícolas
com lágrimas e soluços, outros aos gritos de louvor a Jeová, levaram seus
ídolos de pau e pedra, os quais lançaram em montes perante o missionário. Os
ídolos de pau foram queimados, os de pedra enterrados em covas de quatro a
cinco metros de profundidade e alguns, de maior superstição, foram lançados no
fundo do mar, longe da terra. Um dos primeiros passos da vida cotidiana da
ilha, depois de destruírem os ídolos, foi a invocação da bênção do Senhor às
refeições. O segundo passo, uma surpresa maior e que também encheu o
missionário de gozo, foi um acordo entre eles de fazer culto doméstico de manhã
e à noite. Sem dúvida esses cultos eram misturados, por algum tempo, com
muitas das superstições do paganismo. Mas Paton traduziu as Escrituras, e as imprimiu
na língua aniwaniana e ensinou o povo a lê-las. A transformação do povo da
ilha foi uma das maravilhas dos tempos modernos. Como arde o coração ao ler
acerca da ternura que o missionário sentia para com esses amados filhos na fé,
e do carinho com que esses, outrora cruéis selvagens que comiam uns aos outros,
mostravam para com o missionário! Paton descreveu a primeira Ceia do Senhor
com as seguintes palavras: "Ao colocar o pão e o vinho nas mãos, outrora
manchadas do sangue de antropofagia, agora estendidas para receber e
participar dos emblemas do amor do Redentor, antecipei o gozo da glória até o
ponto de o coração não suportar mais. É-me impossível experimentar delícia
maior antes de eu poder fitar o rosto glorificado do próprio Senhor Jesus Cristo!"Deus,
não somente concedeu ao nosso herói o indizível gozo de ver os aniwanianos irem
evangelizar as ilhas vizinhas, mas também de ver seu próprio filho, Frank
Paton, e esposa, morando na ilha de Tana e continuando a obra que ele começara
com o maior sacrifício. Foi com a idade de 83 anos, que João G. Paton ouviu a
voz de seu precioso Jesus, chamando-o para o lar eterno. Quão grande o seu
gozo, não somente ao reunir-se aos seus queridos filhos das ilhas do Sul do
Pacífico, que entraram no Céu antes dele, mas, também, saudar bem-vindos os
outros ao chegarem ali, um por um!
HUDSON TAYLOR O pai das missões no
interior da China (1832-1905)
Tiago Taylor, o pai de Hudson, não
somente orava fervorosamente por seus cinco filhos, mas ensinou-os a pedirem
detalhadamente a Deus todas as coisas. Ajoelhados, diariamente, ao lado da
cama, o pai colocava o braço ao redor de cada um enquanto orava
insistentemente por ele. Desejava que cada membro da família passasse, também,
ao menos meia hora, todos os dias, perante Deus, renovando a alma por meio de
oração e estudo das Escrituras. Não é de admirar, portanto, que, ao crescer,
Hudson se consagrasse inteiramente a Deus. O grande segredo do seu incrível
êxito é que em tudo que carecia, no sentido espiritual ou material, recorria a
Deus e recebia dos tesouros infinitos. A chamada de Deus, apesar de Hudson
Taylor quase nunca a mencionar, ardia como um fogo dentro do seu coração.
Copiamos a seguir o seguinte trecho de uma das cartas enviada a sua irmã:
"Imagina, centenas de milhões de almas sem Deus, sem esperança, na China!
Parece incrível; milhões de pessoas morrem dentro de um ano sem qualquer
conforto do Evangelho!... Quase ninguém liga importância à China, onde habita
cerca da quarta parte da raça humana... Ora por mim, querida Amélia, pedindo ao
Senhor que me dê mais da mente de Cristo... Eu oro no armazém, na estrebaria,
em qualquer canto onde posso estar sozinho com Deus. E ele me concede tempos
gloriosos... Não é justo esperar que V... (a noiva de Hudson) vá comigo para
morrer no estrangeiro. Sinto profundamente deixá-la, mas meu Pai sabe qual é a
melhor coisa e não me negará coisa alguma que seja boa..." A falta de
espaço não permite relatarmos aqui o heroísmo da fé que o jovem mostrou
suportando os sacrifícios e as privações necessárias para cursar a escola de
medicina e de cirurgia para melhor servir o povo da China. A viagem que
esperavam realizar em quarenta dias levou cinco meses e meio! Somente em 1 de
março de 1854, Hudson Taylor, com a idade de vinte e um anos, conseguiu
desembarcar em Shanghai. Durante os primeiros três meses na China, distribuiu
1.800 Novos Testamentos e Evangelhos e mais de 2 mil livros. Durante o ano de
1855, fez oito viagens - uma de trezentos quilômetros, subindo o rio Yangtzé.
Em outra viagem visitou cinqüenta e uma cidades onde nunca antes se ouvira a
mensagem do Evangelho. Nessas viagens foi sempre prevenido do perigo que
corria a sua vida entre um povo que nunca tinha visto estrangeiros. Para ganhar
mais almas para Cristo, apesar da censura dos demais missionários, adotou o
hábito de vestir-se como os chineses. Rapou a cabeça na frente, deixando o
resto dos cabelos a formar trança comprida. A calça, que tinha mais de meio
metro de folga, ele a segurava conforme o costume, com um cinto. As meias eram
de chita branca, o calçado de cetim. O manto pendendo dos ombros,
sobressaía-lhe a ponta dos dedos das mãos mais que setenta centímetros. Em 20
de janeiro de 1858, Hudson Taylor casou-se com Maria Dyer, uma missionária de
talento na China. Desse enlace nasceram cinco filhos. A casa em que moraram
primeiro, na cidade de Ningpo, tornou-se depois o berço da famosa Missão do
Interior da China. As privações e os encargos de serviço em Shanghai, Ningpo e
outros lugares eram tais que Hudson Taylor, antes de completar seis anos na
China, foi obrigado a voltar à Inglaterra para recuperar a saúde. Foi para ele
quase como que uma sentença de morte quando os médicos informaram-lhe de que
nunca mais devia voltar à China. Entretanto, o fato de perecerem mais de um
milhão de almas todos os meses na China era uma realidade para Hudson Taylor;
com seu espírito indômito, ao chegar à Inglaterra, iniciou imediatamente a
tarefa de preparar um hinário e a revisão do Novo Testamento para os novos
convertidos que deixara na China. Usando ainda o traje de chinês, trabalhava
tendo o mapa da China na parede e a Bíblia sempre aberta sobre a mesa. Depois
de alimentar-se e fartar-se da Palavra de Deus, fitava o mapa, lembrando-se dos
que não tinham tais riquezas. Todos os problemas ele os levava a Deus; não
havia coisa alguma demasiado grande, nem tão insignificante, que a não deixasse
com o Senhor em oração. Em razão de suas atividades, estava tão sobrecarregado
de correspondência e nos trabalhos dos cultos em prol da China, que após a sua
chegada passaram-se mais de vinte dias antes de conseguir abraçar seus queridos
pais em Bransley. Passava, às vezes, a manhã, outras vezes a tarde, em jejum e
oração. O seguinte trecho que ele escreveu mostra como a sua alma continuou a
arder nos seus discursos nas igrejas da Inglaterra, sobre a obra missionária.
Era um domingo, 25 de junho de 1865, de manhã, à beira-mar. Hudson Taylor,
cansado e doente, estava com alguns amigos em Brighton. Mas não podendo suportar
mais o regozijo da multidão na casa de Deus, retirou-se para andar sozinho nas
areias da maré vazante. Tudo em redor era paz e bonança, mas na alma do
missionário rugia uma tempestade. Por fim, com alívio indizível, clamou:
"Tu, Senhor, tu podes assumir todo o encargo. Com tua chamada, e como teu
servo, avançarei, deixando tudo nas tuas mãos." Assim "a Missão do
Interior da China foi concebida na sua alma e todas as etapas do seu progresso
realizaram-se por seus esforços. Na calma do seu coração, na comunhão profunda
e indizível com Deus, originou-se a missão."Com o lápis na mão, abriu a
Bíblia e, enquanto as ondas do vasto mar batiam aos seus pés, escreveu as
simples mas memoráveis palavras: "Orei em Brighton pedindo vinte e quatro
trabalhadores competentes e dispostos, em 25 de junho de 1865". O
vitorioso missionário, juntamente com a família e os vinte e quatro chamados
por Deus, embarcaram em Londres, no "Lammermuir", para a China em 26
de setembro de 1865. A viagem levou mais que quatro meses. Superando várias
tempestades durante a viagem. Foram horas de grande regozijo quando o
"Lammermuir", por fim, aportou, com todos sãos a bordo, em Shanghai.
No início de 1867, o Senhor chamou Graça Taylor, filha de Hudson Taylor, para o
Lar Eterno, quando ela completava oito anos de idade. No ano seguinte, a
senhora Taylor e o filho, Noel, faleceram de cólera. Foi assim que se
expressou o pai e marido: "Ao amanhecer o dia, apareceu à luz do sol o
que fora ocultado pela luz de vela - a cor característica da morte no rosto da
minha esposa. O meu amor não podia ignorar por mais, não somente o seu estado
grave, mas que realmente ela estava morrendo. Ao conseguir acalmar o meu
espírito, eu lhe disse: - Sabes, querida, que estás morrendo? - Morrendo! Achas
que sim? Por que pensas tal coisa? - Posso ver, que sim, querida. As tuas
forças estão se acabando. - Será mesmo? Não sinto qualquer dor, apenas
cansaço. - Sim, estás saindo para a Casa Paterna. Brevemente estarás com
Jesus. "Minha preciosa esposa, lembrando-se de mim e de como eu devia
ficar sozinho, em um tempo de tão grandes lutas, privado da companheira com a
qual tinha o costume de levar tudo ao trono da graça, disse:- Sinto muito!
Então ela parou, como que querendo corrigir o que dissera, porém eu lhe perguntei:
- Estás triste por causa da partida para estar com Jesus? "Nunca me
esquecerei de como ela olhou para mim e respondeu: - Oh! não. Bem sabes,
querido, que durante mais de dez anos, não houve sombra alguma entre mim e meu
Salvador. Não estou triste por causa da partida para estar com Ele, mas me
entristeço porque terás de ficar sozinho nessas lutas. Contudo... Ele estará
contigo e suprirá tudo o que é mister." "Nunca presenciei uma cena
tão comovente" - escreveu o senhor Duncan. - "Com a última respiração
da querida senhora Taylor, o senhor Taylor caiu de joelhos, o coração
transbordando, e a entregou ao Senhor, agradecendo-lhe a dádiva e os doze anos
e meio que passaram juntos. Agradeceu-lhe, também, pela bênção de Ele mesmo a
levar para a sua presença. Então, solenemente dedicou-se a si mesmo novamente
ao serviço do Mestre. Quase seis anos depois de o grupo do
"Lammermuir" haver desembarcado na China, Hudson Taylor estava
novamente na Inglaterra. Durante esse tempo da obra na China, a missão aumentava
de duas estações com sete obreiros, para treze estações com mais de trinta
missionários e cinqüenta obreiros, estando separadas as estações, uma da
outra, na média de cento e vinte quilômetros. Foi durante essa visita à
Inglaterra que Hudson Taylor se casou com Miss Faulding, também fiel e provada
missionária na China. Foi em 1874 quando, com a esposa, subiam o grande rio
Yangtze e ele meditava sobre as nove províncias que se estendiam dos trópicos
de Burma ao planalto de Mongólia e as montanhas de Tibete, que Hudson Taylor
escreveu: Mas, no meio da viagem, receberam notícias da morte da fiel
missionária Amélia Blatchley, na Inglaterra. Ela não somente cuidava dos filhos
do senhor Taylor, mas também servia como secretária da Missão. Grande foi a tristeza
de Hudson Taylor ao chegar à Inglaterra e achar não somente os seus queridos
filhos separados e espalhados, mas a obra da Missão quase paralisada. Mas
isso não foi ainda a sua maior tristeza. Na sua viagem pelo rio Yangtze, o
senhor Taylor, ao descer a escada do navio, levou uma grande queda, caiu sobre
os calcanhares e de tal maneira que o choque ofendeu a espinha dorsal. Depois
que chegou à Inglaterra o incômodo da queda agravou-se até ele ficar acamado.
Sobreveio-lhe então a maior crise da sua vida, justamente quando havia maior
necessidade de seus esforços. Completamente paralítico das pernas, tinha de
passar todo o tempo deitado de costas! Uma pequena cama era a sua prisão; é
melhor dizer que era a sua oportunidade. Ao pé da cama, na parede, estava
afixado um mapa da China. E ao redor dele, de dia e de noite, estava a presença
divina. Aí, de costas, mês após mês, permaneceu o nosso herói, rogando e
suplicando ao Senhor a favor da China. Foi-lhe concedida a fé para pedir que
Deus enviasse dezoito missionários. Em resposta aos seus apelos para oração,
escritos com a maior dificuldade e publicados no jornal, sessenta moços
responderam de uma vez. Dentre eles, vinte e quatro foram escolhidos. Ali, ao
lado do leito, ele iniciou aulas para os futuros missionários e ensinou-lhes as
primeiras lições da língua chinesa - e o Senhor os enviou para a China. Lê-se
o seguinte acerca de como o missionário inutilizado em corpo, nesse tempo,
ficou bom: "Ele foi tão maravilhosamente curado, em resposta à oração, que
podia cumprir com um incrível número de suas obrigações. Passou quase todo o
tempo das férias, com seus filhos em Guernsey, escrevendo. Durante os quinze
dias que passou ali, apesar de desejar compartilhar da delícia da linda praia,
com seus filhos, saiu com eles apenas uma vez. Mas as cartas que enviou para a
China e outros lugares valiam mais do que ouro." Um segredo do seu grande
êxito de levar a mensagem de salvação ao interior da China era a determinação
de que a obra não somente continuasse com caráter internacional, mas também,
interdenominacional - que aceitasse missionários dedicados a Deus, de qualquer
nação e de qualquer denominação. A gloriosa colheita de almas na China
aumentava cada vez mais. Mas a situação política do país piorava dia após dia
até culminar na Carnificina dos Boxers, no ano de 1900, quando centenas de
crentes foram mortos. Somente da China Inland Mission pereceram cinqüenta e
oito missionários, e vinte e um de seus filhos. Hudson Taylor, com a sua
esposa, estavam novamente na Inglaterra, quando começaram a chegar telegrama
após telegrama avisando-os dos horripilantes acontecimentos na China; aquele
coração que tanto amava a cada missionário, quase cessou de pulsar. Acerca
desse acontecimento assim se manifestou: "Não sei ler, não sei pensar, nem
mesmo sei orar, mas sei confiar." Certo dia, alguns meses depois, Hudson
Taylor, com o coração transbordante e as lágrimas correndo-lhe pelas faces,
estava contando o que lera em uma carta que acabara de receber de duas
missionárias, escrita um dia antes de elas morrerem nas mãos dos boxers. Foi em
30 de julho de 1904 que sua esposa faleceu. "Não sinto nada de dor, nada
de dor", dizia ela, apesar da ânsia em respirar. Então, de madrugada,
percebendo a angústia de espírito do seu marido, pediu-lhe que orasse rogando
ao Senhor que a levasse logo. Foi a oração mais difícil da vida de Hudson
Taylor, mas por amor dela, ele orou pedindo a Deus que libertasse o espírito da
sua esposa. Logo que orou, dentro de cinco minutos cessou a ânsia e não muito
depois ela adormeceu em Cristo. A desolação de espírito de Hudson Taylor sentiu
depois da partida da sua fiel companheira era indescritível. Todavia, achou
indizível paz nesta promessa: "A minha graça te basta." Começou a
recuperar as forças físicas e na primavera fez a sua sétima viagem aos E.U.A.
Daí fez a última viagem à China, desembarcando em Shanghai em 17 de abril de
1905. O valente líder da Missão, depois de tão prolongada ausência, foi
recebido em todos os lugares com grandes manifestações de amor e estima da
parte dos missionários e crentes, especialmente dos que escaparam dos
intraduzíveis espetáculos da insurreição dos Boxers. Em Chin-Kiang, o veterano
missionário visitou o cemitério onde estão gravados os nomes de quatro filhos
e o da esposa. As recordações eram motivo de grande gozo, isto é, o dia da
grande reunião se aproximava. No meio da viagem, quando visitava as igrejas na
China, sem ninguém esperar, nem ele mesmo, findou a sua carreira na terra.
Isso aconteceu na cidade de Chang-sha em 3 de junho de 1905. Sua nora contou o
seguinte, sobre esse acontecimento:"O querido papai estava deitado. Como
sempre gostava de fazer, tirou as cartas, dos queridos, da sua carteira e as
estendeu sobre a cama. Baixou-se para ler uma das cartas perto do candeeiro
aceso colocado na cadeira ao lado do leito. Para que ele não se sentisse
demasiadamente incomodado, puxei outro travesseiro e o coloquei por baixo da
sua cabeça e assentei-me numa cadeira ao seu lado. Mencionei as fotografias da
revista, Missionary Review, que estava aberta sobre a cama. Howard tinha saído
para ir buscar algo para comer, quando papai, de repente, virou a cabeça e
abriu a boca como se quisesse espirrar. Abriu a boca a segunda, e a terceira
vez. Não clamou; não pronunciou qualquer palavra. Não mostrou qualquer
dificuldade para respirar - nada de ânsia. Não olhou para mim, e não parecia
cônscio... Não era a morte, era a entrada na vida imortal. Seu semblante era
de descanso e sossego. Os vincos do rosto feitos pelo peso da luta de longos
anos pareciam haver desaparecido em poucos momentos. Parecia dormir como
criança no colo da mãe; o próprio quarto parecia cheio de indizível paz."
Na cidade de Chin-Kiang, à beira do grande rio que tem a largura de mais de
dois quilômetros, foi enterrado o corpo de Hudson Taylor.
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2 comentários
Cadê John Wesley?
ResponderExcluirNa verdade faltam muitos heróis. Estes são somente alguns mais atuais
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